sexta-feira, 29 de abril de 2011

Motivos


Pensei em escrever por tantos motivos diferentes nesses últimos dias iguais, me limitei a uma motivação egoísta: Escrever me faz bem. 

Letras após letra eu vou organizando tudo que anda bagunçado dentro da minha cabeça, tudo fica em ordem ao menos no papel seja ele digital ou não, pergunto-me se não seria mais interessante que as coisas continuassem codificadas, ainda que montar esse quebra cabeças seja o meu passatempo favorito. 

Enquanto sigo as pistas, junto os fatos, imagino e testo encaixes, e com algum tempo tudo está claro, junto e firme, é no clarão do último raio de tempestade que eu vejo o que criei e às vezes não tenho vontade de olhar essa imagem, então embaralho tudo como se pudesse esquecer-me do que vi. 

É uma verdade incrivelmente inconveniente o fato de que só percebemos que esquecemos algo quando queríamos lembrar, nunca consegui esquecer algo só porque queria não lembrar, muito pelo contrário a determinação para deixar coisas de lado só as põe mais na nossa frente. 

Nessa tela escura estou ao lado como uma figura esquecida, virei uma espécie de agente do necessário, e o meu salário vem sendo o lento apagar. Eu vou mesclando-me ao fundo, fazendo parte do tudo menos de mim. Apagar em todos os sentidos. Estou sumindo, para onde foram os quilos, os sorrisos, onde estou quando os amigos me procuram? Sou um fantasma na moldura do meu próprio retrato. 

Um pagamento um tanto ingrato, um falir gradativo recebido como quem ganha uma gratificação, venho mostrando gratidão pelos empurrões violentos, agradecendo pelas rasteiras. Dessa maneira eu vou desaparecendo da vida. 

Minha dieta de engolir a verdade dos outros, vai chegar ao ponto de me sufocar. Vão me pintando como vagabundo, o malandro mal intencionado, o grosso, insensível, intrometido, teimoso, invasivo, sou a face e a voz do mentiroso, a descrição de um bandido. 

Quem pegue no pincel que ponha uma nova imagem, que me ponha em outra roupagem, sou o coitado, o esperançoso, determinado, romântico e promissor. Há quem me venha com traços mais sinceros e risque-me a face ilustrando o palhaço, rabiscando o ridículo, tatuando a estupidez em uma grande gravura que caiba em si a parte de mim que se engana, que põe a face na frente do golpe e reage chorando, um desenho que mostre o que venho sofrendo. 
Com delicado pincel cobrem-me o rosto como que com maquiagem e ando constrangido para que a imagem não borre, para que não caia o que me sustenta e eu tombe junto, para que as coisas não saiam do lugar e eu fique exposto e toda essa pintura pesada feita em camadas age como a mais rústica máscara, deixa marcas no que eu realmente tenho para mostrar. 

Do pouco que me restou posso apenas afirmar que: Escrever me faz bem.